08.05.08
Perdendo o amigo
- Que foi que você tá com essa cara de ressaca? – perguntou um amigo que, em plena sexta a noite, se admirava com a minha falta de ânimo.
- Fui tomar cerveja ontem com uns amigos, cheguei tardão em casa.
- Que amigos? – perguntou, franzindo a testa.
Amigo, que é melhor amigo, sempre desconfia quando você fala de “uns amigos”, sem especificar o segmento, porque sabe que em algum momento você já se referiu a eles de alguma forma.
- Uma amiga ia viajar e a gente fez um encontro – disse, fazendo pouco caso.
Você podia parar por aí. Mas a essa altura seu amigo já ta com aquela cara inquiridora que significa: “sei...desenvolva....”
Eu não pretendia nem zoar. As lições de humildade que a burro-velhice me ensinaram, fizeram eu segurar a língua por cerca de dez segundos. O que para mim já é um avanço, já que a ironia é a minha característica preferida. Fui obrigada a discorrer sobre o tema.
Um amigo tinha aparecido uma gatinha nova. Só que a menina tinha 13 anos, 20 quilos, 1 metro e setenta de altura, 70 centímetros de cabelo alisado e dez de salto, num sapatinho com uma fivela de strass. De tanta tatuagem, parecia uma geladeira cheia de imã. Não vi mas tenho certeza que alguma delas era uma Hello Kitty. Pós-adolescente emo. De tomara-que-cai balonê roxo metálico. Num pé sujo. Bebendo Ismirnoff Ice. E falando sobre as amigas do Messenger. Meu Deus.
É, isso mesmo, meu Deus! Se você é super puro de coração e não achou a descrição nada demais então procura outra pessoa para ler, eu sou má.
E de mais a mais, pouco importa o que eu achei da menina. Ela, em absoluto, não é a questão. Só que, como quase tudo na vida, não faz sentido fora de seu contexto.
Ridículo mesmo é o menino que tá com ela. Ou melhor, que apresenta aos amigos porque equívocos todo mundo comete. Na verdade, é até bem possível que ele enxergue o papel mas seja fanfarrão demais para achar isso um problema. Pagando de moleque num estágio que ultrapassa o charme e dá um pouco de preguiça. Minha cabeça é muito feita para alcançar esse nível de carência.
- Você pode me dizer que porra um cara como ele tá fazendo com uma menina que nem essa? - perguntei ao meu amigo que faz cabala e já ultrapassou os 30, portanto, é um ser transcendente.
- imagina, conheço. É do tipo que gosta de uma bucetinha distraída.
Era isso. Uma boba, facilmente administrável, que ia dar para ele no minuto seguinte. Bucetinha distraída encerra a discussão.