mary jane

Do I contradict myself? Very well, then. I contradict myself.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2007, 17

17.09.07

primeira impressão

categorias: jornalismo mentira
“ Um pouco de possível senão eu sufoco” – a chatice como práxis no meio acadêmico
Joana Brea

palavras-chave: intelectual, bem- intencionado, chato.

Você o conhece. É aquele tipo que não consegue engrenar em um papo sem sacar do caderninho um teórico francês, mesmo (ou principalmente) na presença de substâncias etílicas. Não vê a menor graça na televisão aberta, sai dos filmes comentando que a luz é a grande protagonista e não resiste a encher a paciência do alheio dissecando a desfaçatez dos feriados comerciais. Tudo isso, obviamente, abusando de recursos gramaticais que você vagamente ouviu falar no ensino médio. Quem são esses indivíduos? Qual seu lugar de fala? Quais suas estratégias de enunciação? E porque diabos eles se referem a si mesmos na primeira pessoa do plural? Traçaremos um panorama das raízes dessa práxis barroca.
Para possuir um lugar de fala autorizado, o indivíduo precisa definir sua cardiologia. “Eu sou especialista em narrativa do cinema do pós-guerra asiático”. Ah, tá... Vivemos sob a ditadura da humildade fingida, reflexo de uma mea-culpa exagerada. Tudo são opiniões, pontos de vista, chaves de leitura. Nada mais é ruim nem chato. Tudo é proposta. Da mesma forma que os roqueiros deixaram de ser rebeldes e passaram a ser pais de família que ajudam causas humanitárias, também o intelectual perdeu sua principal característica: o direito a opinião. A bela proposta do respeito pelo diferente desencadeou no moralismo do politicamente correto.
A proposta é boa de coração. Aqueles que não vieram ao mundo para girar a máquina do capital, gastam seu tempo ocioso refletindo sobre a história do mundo e da humanidade. Natural. Alguém tem que fazê-lo. E, como estão todos, em última instância, querendo chegar a (sua própria) verdade precisam arrumar estratégias para legitimar o que nunca deixará de ser mero achismo, mesmo fazendo a cabeça de um monte de gente. Vem daí a origem da pior chaga acadêmica: a citação.
“ Para compreender a mídia hoje é fundamental recorrer ao mecanismo disciplinar da qual fala Foucault baseado nas idéias de Nietzsche sobre as relações de poder.” O que faz o indivíduo que não sabe o que é mecanismo disciplinar, nunca ouviu falar em Foucault e não faz idéia de como se soletra Nietzsche? Fácil. Não entende o que os moços estudados querem dizer sobre a mídia.
E este é o pior desdobramento desta prática. O acadêmico fala para o vazio ou, no máximo, para seus semelhantes que, em sua maioria, se esforçaram veementemente em refutá-lo. O melhor exemplo disso são os títulos de dissertações de mestrado e doutorado. Estudos comprovam que, pelo menos, 78% delas fazem uso de dois pontos (:). Globalização perversa e androgenia econômica: o papel das paquitas da formação da psique.
Na raiz dessa não-comunicação está o léxico acadêmico. Palavras estrangeiras, preferencialmente européias - que eles ainda são o centro do mundo: práxis, ethos, devir, diegese, plongée. E algumas (muitas) palavras de ordem: paradigma, mediação, enunciação, dispositivo.
O que era para ser um serviço retórico não reverbera por puro elitismo. Distanciando-se cada vez mais da fronteira do popular, o acadêmico se recusa a pensar o mundano. “E daí que a Globo atinge 80% da população? Televisão é um assunto menor. Meu objeto de estudo são as cartas que padre Antônio Vieira mandava para seu primo de segundo grau” . Ok, então.
O que era para ser pensamento, idéia, reflexão, possibilidade virou doutrina e, como todas, se perdeu em normatizações abenitecnicas que fazem do ousado, careta e do inspirador mera chatice. E para citar uma referência no pensamento sobre a aleatoriedade do texto acadêmico:“ sendo assim, .”