mary jane

Do I contradict myself? Very well, then. I contradict myself.

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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2007, 11

11.11.07

Prozac e a burguesinha


Ia voltando para casa de bicicleta, a burguesinha.
Depois de três anos morando além túnel, podia novamente se deslocar a pedaladas.
O percurso que traçava pela cidade se limitava ao principado da zona sul. Com a Lagoa no meio e os bairros adjacentes saindo em diagonal. Como raios de sol.
Naquela manhã colorida, resolveu pegar o caminho mais longo, a burguesinha. Para apreciar a paisagem.
A escolha do meio não era pela poluição ou pelo trânsito mas pelo senso de liberdade e coragem da juventude. Que precisava resgatar.
O ipod cochichava a sabedoria da arte em seus ouvidos e ela acompanhava a plenos pulmões, ultrapassando os pedestres com versos fragmentados. Abria os braços, largava o guidom, descia ladeiras desvairadas. E, depois de tempos tão cinzas, sentia que o vento que soprava em seu rosto trazia no horizonte um bright sunshine day.
Na metade do caminho, no entanto, um som. Plat!!!! E o pneu da bicicleta estourou.
Conserto só dali há um quilômetro. Levaria uma meia hora acompanhando a bicicleta até lá.
Passados 15 dos trinta minutos, já de saco cheio, pensou:

- O que será que acontece se eu andar na bicicleta, só até ali pertinho, mesmo com o pneu estourado?

Jegue.
Aparentemente a câmara de ar também estoura e ejeta o passageiro no asfalto.
Bosta.

Toda ralada, a burguesinha agora não tinha mais como levar sua bicicleta adiante, a não ser no muque. Uma vez a câmara de ar estourada, o pneu não roda mais e, a velha bicicleta era pesada como uma criança pequena. Ou grande. Não sabia o quanto pesava uma criança. Talvez não fosse uma boa metáfora.

Pensou em desistir, largar aquele ferro velho e partir para outra. Mas não teve coragem. Nunca tinha.

Em algum momento, teve a brilhante idéia de levá-la em pé, como um cavalo empinando, o que, se era mais leve, era também difícil de controlar porque a velha bicicleta, claro, estava empenada e perdia o equilíbrio, criando roxos que a acompanhariam pela próxima semana.

Depois de andar um quilometro fazendo força e com a parte direita de seu corpo ensangüentada, a burguesinha chegou ao mecânico e consertou a bicicleta.

E voltando para casa, já pedalando, não escapou ao bichinho reflexivo que ocupava sua cabeça: tanta coisa tinha dado errado nos últimos tempos e a bicicleta era um símbolo de um futuro livre e delicioso. Mas nem isso, dava certo. A porra do cosmos, mais uma vez, conspirava contra.

Problema do cosmos - pensou a burguesinha - tudo fica muito mais fácil quando se aprender a levantar...