mary jane

Do I contradict myself? Very well, then. I contradict myself.

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Terra Blog

18.02.08

...dos caminhos (im)possíveis


Sabe o que eu queria mesmo? Estar com Ray Mazreck e Jim Morisson quando eles pensaram: vamos fazer uma banda?  Queria ter ido a Woodstock e descacetado em último grau. Queria ter apoiado John Lennon em suas causas. Marchado ao lado de Hélio Oiticica na primeira Gay Pride parade de Nova York. E beijado mick jagger quando ele tinha vinte poucos anos.
Queria ser um duende livre da roldana do mundo. Na flora alucinógena da arte.
Queria ter tomado banho de rio com caetano pelado no Sana. E visto a beleza magra de maria bethania. Queria ter assistido Roda Viva no Teatro Opinião. Queria ter ido na festa da Helô que abre o 1968 do Zuenir Ventura. Queria ter vivido em um mundo em que as palavras paz e amor não tivessem virado expressão sarcástica para qualquer tipo de esquisito. E levar minha vida a base de discos, livros e amigos.
Queria poder ter dito ao Renato Russo: é isso! você entendeu tudo. E ter achincalhado a burguesia com Cazuza numa mesa de bar.
Queria tatuar algumas palavras do Bob Dylan no meu braço e pintar meu cabelo de laranja, igual a Clementine do Brilho Eterno. Queria ser aluna do Jorge Furtado e do Guel Arraes. Queria ter ouvido o Dias Gomes falar de TV. E o Eisenstein falar sobre cinema. Ter agradecido a Edgar Morin e Umberto Eco. E de dizer ao Adorno: calma, você tá exagerando...
Queria ter dito a Platão: você vai inventar o mundo. nunca mais sairemos da caverna. E a Jesus: acho ótimo, só toma cuidado pro povo não levar isso a sério demais.
Queria ter sido alquimista. Merlin. Dr. Lao. Harry Potter. Nicolau Flamel. Sabedor do entre o céu e a terra. E ter dito a Raul: eu também nasci há muito tempo...
Queria, mais do que tudo, ter nascido personagem. E na minha cabeça louca que se auto-entretém, de alguma forma, já fiz tudo isso.

Lígia Clark

coloquei uma máscara por cima da minha.
quente e pesada. tipo capuz.
a pele rapidamente deu falta do vento: clausura.
o ar vinha de baixo, cheirando à hortelã.
aconchego.
nos ouvidos, um par de conchas me contava o barulho do mar
trazendo marolas de juventude.
posso ficar aqui dentro? cansei da arrebentação...
através de dois buracos, via meus olhos refletidos em um óculos invertido.
olá, alice.
a menina do espelho está olhando para cá,
iluminando o buraco negro dos instantes repetidos.
juntas dançaremos, aos aplausos do sábio,
pela estrada das palavras.
tijolos amarelos,
rumo à libertação.

11.11.07

Prozac e a burguesinha


Ia voltando para casa de bicicleta, a burguesinha.
Depois de três anos morando além túnel, podia novamente se deslocar a pedaladas.
O percurso que traçava pela cidade se limitava ao principado da zona sul. Com a Lagoa no meio e os bairros adjacentes saindo em diagonal. Como raios de sol.
Naquela manhã colorida, resolveu pegar o caminho mais longo, a burguesinha. Para apreciar a paisagem.
A escolha do meio não era pela poluição ou pelo trânsito mas pelo senso de liberdade e coragem da juventude. Que precisava resgatar.
O ipod cochichava a sabedoria da arte em seus ouvidos e ela acompanhava a plenos pulmões, ultrapassando os pedestres com versos fragmentados. Abria os braços, largava o guidom, descia ladeiras desvairadas. E, depois de tempos tão cinzas, sentia que o vento que soprava em seu rosto trazia no horizonte um bright sunshine day.
Na metade do caminho, no entanto, um som. Plat!!!! E o pneu da bicicleta estourou.
Conserto só dali há um quilômetro. Levaria uma meia hora acompanhando a bicicleta até lá.
Passados 15 dos trinta minutos, já de saco cheio, pensou:

- O que será que acontece se eu andar na bicicleta, só até ali pertinho, mesmo com o pneu estourado?

Jegue.
Aparentemente a câmara de ar também estoura e ejeta o passageiro no asfalto.
Bosta.

Toda ralada, a burguesinha agora não tinha mais como levar sua bicicleta adiante, a não ser no muque. Uma vez a câmara de ar estourada, o pneu não roda mais e, a velha bicicleta era pesada como uma criança pequena. Ou grande. Não sabia o quanto pesava uma criança. Talvez não fosse uma boa metáfora.

Pensou em desistir, largar aquele ferro velho e partir para outra. Mas não teve coragem. Nunca tinha.

Em algum momento, teve a brilhante idéia de levá-la em pé, como um cavalo empinando, o que, se era mais leve, era também difícil de controlar porque a velha bicicleta, claro, estava empenada e perdia o equilíbrio, criando roxos que a acompanhariam pela próxima semana.

Depois de andar um quilometro fazendo força e com a parte direita de seu corpo ensangüentada, a burguesinha chegou ao mecânico e consertou a bicicleta.

E voltando para casa, já pedalando, não escapou ao bichinho reflexivo que ocupava sua cabeça: tanta coisa tinha dado errado nos últimos tempos e a bicicleta era um símbolo de um futuro livre e delicioso. Mas nem isso, dava certo. A porra do cosmos, mais uma vez, conspirava contra.

Problema do cosmos - pensou a burguesinha - tudo fica muito mais fácil quando se aprender a levantar...

06.10.07

Day after

Eu não tenho mais o fato – prometi que não abusaria mais daquela palavra cansada.
A bem da verdade, deveria mesmo era mudar de assunto, uma vez que a bruma se dissipou.
Cada canto encontrou sua esquina. Não há mais o que dizer.
Como sempre, falei mais do que deveria.
Você, como sempre também, engasgou e eu entendo.
E me alivio,
não tendo saúde para morrer mais uma vez.
Mas entristeço,
reprimindo novamente aquele cego pedaço de alma que incendeia o corpo todo de esperança. Ressaca de felicidade imaginada.
Exagero: os astros estão na posição certa.
Mas nem por isso, menos abatidos pela distância do sol.
Me forcei os caminhos cinzas,
e você, sempre preocupado, felicitou minha partida reticente.
E serão felizes, em seu desamor cheio de saudades.
Mas nunca tão felizes.
Sei bem porque não mudo de assunto.
Por que só a calorosa tela em branco me deixa lembrar de você.
Congelada em sentimentos proibidos e dias eternos,
rasgada em letras miúdas, persigo a próxima linha.
É a única maneira que tenho para permanecer.
Não tenho mais o fato mas tenho você dentro de mim.
E isso me basta, por enquanto.
Boa noite, meu amor,
Durma com o beijo que eu não te dei.

02.10.07

exílio

Os dias de solidão me dão tempo e assunto.
Alerta ao aqui e agora da vida passante,
em movimento de rotação.
Estrangeira, em estado de gerúndio,
sem a confirmação material da minha expressão no mundo.
Minha casa é dentro de mim.
Escondida no escuro e exposta no word
e dele para o mundo das digressões virtuais.
Precisei perder o teto para achar o chão
e perder o controle para encontrar o caminho.
um caminho – que eu não sou mais menina.
E da ruína do projeto, encontrei o prazer da busca, a construção no erro e o amanhecer alaranjado das possibilidades.
Sempre a mesma esperança nos raios de sol.

Aqui no exílio, os ricos são mais ricos, e a burguesia se assume sem culpa. E eu, parte dela, presa nas dores fúteis do meu latifúndio.
E nas necessidades criadas pelo mundo que aprendi.
Dependente da alienação demasiadamente humana da tv por assinatura
E da sabedoria do Google
de bares, cinema e livros
alimentos da alma,
hedonismo classe média.
Posso viver perfeitamente sem isso
Mas não curto.
Preciso de um óculo branco: não tenho como fugir de mim.