mary jane

Do I contradict myself? Very well, then. I contradict myself.

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Terra Blog

17.09.07

Todo mundo precisa de um menininho ruivo

Você não acredita o que ele me falou! – disse, ao telefone, para uma amiga igualmente solteira. Que eu tenho os pés mais bonitos que ele já viu! – bradou em um tom altamente esclarecedor. E riu de si mesma pois tinha claro que todo comentário dessa ordem é dirigido àqueles que nos predestinam aprovação.
Gente, esse cara tá mesmo afim de você! Era o que queria ouvir. Prosseguiu o papo, então, contando todas as migalhas de atenção recebidas até o presente momento, com as ficcionalizações necessárias a uma narrativa interessante.
Você não acredita! A gente estudou na mesma escola no maternal, o sonho dele é trabalhar numa ONG, é aficionado por The Clash e ainda por cima tem o ascendente em água. Em água?! – exclamou a amiga como se aquilo resumisse tudo.
Estava adorando. Tinha cansado daqueles amigos de sempre que, achando que a idéia era chamar para realidade ao invés de simplesmente endossar o delírio, diziam que o acalentado charminho, se não fosse fruto de uma imaginação sabidamente fértil, seria altamente nocivo. Intolerância. Ninguém sabia apreciar o sabor de uma boa auto indulgência.
Falou tudo o que pôde sobre o indivíduo. Até inventou alguns pedaços para finalidades dramaturgicas. E é artista, veja você! Me disse que pinta à guache os cartões de aniversário da mãe e da avó. Sensível. Menino de família. O que mais ela podia querer?
Parou um minuto. Enquanto a amiga elaborava digressões sobre a tragédia de seus relacionamentos recentes, a titulo de comparação, seu super ego martelava a idéia de que nenhum ser de carne e osso é ideal de protagonista romântico. Todo mundo tem pai e mãe, irmã chata, mania, porcaria de alguma ordem, restrições alimentares, amigos inconvenientes...Ele não. De mais a mais, não era como se quisesse algo paupável. A tônica da vez era, justamente, os possíveis abstratos.
Por mil vezes, no momento da vigília, imaginara desfechos para o recém adquirido relacionamento. Os dois se beijando, ele um pouco relutante mas seduzido ou ele completamente desinteressado que, se não era uma saída tranqüilizadora, pelo menos, era o fim de uma angústia.
Que ela não sabia querer terminada. Ansiava voltar a sua vida normal de dias e noites descansados do amor. Bem dormida, mal comida, focada. Operária em construção. Mas não queria abdicar do furor poético da paixão imaginada.
Mas, conta, ele chegou em você? Pergunta dolorosa. Não. E nem vai - preferiu abrir a preocupação. Ele não quer ficar comigo. Ele é só legal – disse, suplicando por uma negativa. Que não veio...
Mas como assim? – quis saber a outra, caindo na armadilha da razão. Ele não dá em cima de mim – respondeu amargurada. Ele só me elogia – disse reticente. Mas ele elogia todo mundo? - era a pergunta decisiva. Não, que eu saiba não – respondeu, preferindo se abster do julgamento critico.
Colocou por um momento a cabeça no lugar. Diante da larga experiência pregressa, era comprovação científica que homens não relutam frente as suas vontades. Se índio quer apito, índio beija o apito sem maiores considerações. Mas ele é artista, sensível, diferente – ponderou. Não, não existe homem diferente. E preferiu acalentar a inconveniência da razão diante do que considerava ser uma verdade universal.
Mas e o contato físico? – perguntou a amiga, escolada no diagnóstico amoroso. Há olhares, carinhos, momentos??? – questionou, antecipando a perspectiva de uma visão aterradora dos planos sentimentais.
Nada – respondeu a outra, conclusiva e amargurada. Ele, inclusive, evita um pouco essa aproximação mas eu sempre me questionei se não seria por conta da conjuntura, que não procede....
A amiga emudeceu. Mais ou menos como a ampulheta do computador persiste em se alongar quando o programa utilizado está prestes a dar pau. Quanto mais falava, como toda boa terapia da palavra, mais elucidava racionalmente seu problema, rumando para uma resposta prática que a assustava e, francamente, pouco lhe interessava.
Acho que ele não está afim de mim – optou por fingir sinceridade. Acho que...na verdade, tenho certeza...que eu sou só mais uma amiga. Ele é do tipo que tem amigas mulheres, como eu tenho amigos homens....
...com a diferença que você beijou a grande maioria dos seus amigos homens – desferiu o golpe mortal a pobre então ex amiga... a exceção dos feios...o que não é o caso...
...nem...
...E aí? Fazer o quê?
...Fazer o quê? - refletiu longamente a lamentável aspirante a Bovary
Encarar a rejeição? Assassinar precocemente o sonho de - não um amor eterno que isso é outra história - mais de um beijo recente? Difícil. Mas necessário. Engoliu rasgante a realidade, recobrou a purpurina da vontade e ligou para uma amiga diferente.
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